Abu Mohammed acabou de reconstruir sua casa que foi demolida… pela quarta vez em oito anos. Quando o exército chega – muitas vezes sem qualquer tipo de documentação oficial – eles não dão tempo para os moradores tirarem as coisas de dentro. Em questão de minutos, a casa desaparece e em seu lugar resta apenas entulho. Ele e os 34 integrantes da sua família sabem que essa não foi a última vez, porém estão muitos determinados a resistir.
Mesmo se recebessem 3 milhões de dólares eles não sairiam. Na verdade, essa foi a exata quantia que o Estado de Israel já ofereceu para que Abu deixasse seu bem pequeno pedaço de terra isolado num topo de uma montanha e se mudasse para a vila com a sua família. “Of course I did not accept it” enfatiza mesmo depois de apontar o espaço entre tijolos no chão. É onde ele dorme quando sua casa está derrubada. Ele e sua família são a personificação do conhecido lema palestino “To Exist is to Resist”.
Apesar de todos os assentamentos israelenses serem ilegais na Palestina, o exército só se preocupa em derrubar a casa de Abu e de alguns outros palestinos porque se encontram teoricamente em área militar. Cada vez que se recusa a sair do terreno, é julgado na corte (militar) israelense e obrigado a pagar 3 mil shekels. Isso, claro, quando não é preso como já aconteceu. É raro encontrar na Cisjordânia um palestino que não tenha sido preso ao menos uma vez. Incluo crianças de doze a dezessete anos nessa observação.
Enquanto me esforçava para absorver tudo que ele contava com bastante naturalidade, um de seus filhos mais velhos apareceu com uma bandeja e cinco xícaras de café. Independentemente da precariedade da situação, sempre colocavam a boa hospitalidade em primeiro plano.
Quando todos já estavam com uma xícara na mão, Abu começou a contar outra história. Certa vez, estava plantando alguma coisa perto de casa e seu vizinho, morador de um assentamento, foi tirar satisfação junto com uma M16. Depois de uma calorosa discussão, a metralhadora foi parar nas mãos de Abu que nos perguntou: “What should I do? I did not want to shoot him”. Tomou, então, a decisão de jogar a metralhadora longe enquanto dizia para o dono da arma “I don’t want it. It is stupid like you”.
Mesmo assim, o exército diz que Abu e a família são mais perigosos que aqueles que usam armas contra Israel. Muitas vezes, quando os militares decidem não demolir a casa, levam apenas portas e janelas como forma de provocação e aviso prévio.
Estávamos do lado de fora e o sol começou a se por já no final de suas histórias. Apesar de todo o contexto, era possível notar como o vale e as montanhas formavam uma bela paisagem. Como se Abu tivesse percebido o que passava em minha cabeça, disse: “This land has always been in conflict. The Turks… The British… and now Israel” – soltou um longo suspiro e terminou – “I wonder who is going to be next”.

Campo de refugiados. Foto da década de 50 e dos anos 2000.
Deixe um comentário