Cazaquistão diferente do Tajiquistão

CAZAQUISTÃO 
 

A lagarta verde, daquelas que queima, passava pelo dedo indicador de Konstantin, que brincava com ela enquanto me respondia sobre como era viver no Cazaquistão durante a União Soviética. Enquanto ele olhava em meus olhos, reparei que suas sardas eram fracas, mas tantas que marcavam presença inclusive nas pálpebras.

Eu comecei a me incomodar com a lagarta, que agora rastejava rumo ao seu polegar. Ele continuava falando de Gorbatchev.

Estávamos sentados numa improvisada mesa de madeira no meio do deserto, ao lado da Pajero 4×4 entupida de tralhas de acampamento. Eu, Konstantin e Julia, sua mulher, que assim como Konsta, era guia das montanhas do parque natural do Cazaquistão, Altyn Emel. Parque tão grande que é do tamanho de outro país inteiro. Tudo bem que esse outro país inteiro é a Bélgica, mas enfim, não é menos impressionante por isso.

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Canyon em Altyn Emel. Foto por Konsta

Já conhecia os dois há dois dias e há 292 quilômetros de estrada. Julia tinha 40 anos e pele de 20, cabelo louro, muito claro e seu olhos, azuis, ainda mais claros. Traços finos e ao mesmo tempo, fortes. Ela falava com uma firmeza invejável; uma daquelas pessoas que parece ter nascido depois de ter feito um curso de oratória.

Konsta tinha o cabelo castanho quase ruivo, mesmo tom indefinido das sardas. Claramente um homem adulto, mas que parecia carregar uma alma de criança que transparecia mais à medida que o tanque de diesel diminuía para chegarmos em direção às montanhas. 

E chegamos. 

No mesmo parque de Altyn Emel, a paisagem varia por cada quadrado de quilômetro que entramos. Lá vemos montanhas e neve, deserto e dunas, rios e planícies, águias e cavalos selvagens.

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Já era pôr do sol quando chegamos à base da Duna que Canta. Quando havia pesquisado sobre essa formação de areia, me chamou a atenção a possibilidade de colocar na mesma foto um deserto de areia e de neve. Quando cheguei ao topo minutos e quilos de areia no tênis depois, a paisagem oferecia um enquadramento com um rio e um pôr do sol também.

Mas só enquadrei com os olhos. Demorei para pegar a câmera, tirar a capa da lente, olhar no visor e clicar. O pôr do sol não iria sair dali – até iria, na verdade – mas a câmera poderia esperar um pouco. Estava tão hipnotizada que consegui esquecer de reparar se a Duna que Canta de fato cantava. Fui lembrar dessa falha dias mais tarde no meio de um ônibus no Quirguistão. 

Havia subido a duna em estado saudável e com bom fôlego. Desci a duna gripada e com o nariz escorrendo. Julia logo me deu um chá — senti a felicidade inédita de beber água fervida — e Konsta logo jogou em mim o seu maior casaco.  Ficamos ali conversando enquanto as primeiras estrelas nasciam — não havia nenhum outro ser humano no campo de visão. Campo bem vasto.

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​una que Canta

Julia e Konsta eram ainda universitários quando a União Soviética entrou em colapso. Não sabia o que esperar quando fiz a pergunta, se eles falariam da década de 80 com tom de ódio ou de nostalgia.

Nostalgia foi o tom utilizado para a minha surpresa, tom maior até do que alguns professores de geografia de ensino médio usariam. Desde que a URSS entrou em colapso, o corrupto presidente, democraticamente eleito, é o mesmo – está no poder há mais anos do que a autora deste relato está vivendo na Terra. Ou seja, as coisas não melhoraram, considerando que ainda há um regime totalitário que usufrui dos recursos nacionais para enriquecimento próprio e coloca o desenvolvimento econômico nacional em enésimo plano. E agora a população tem que pagar por educação, saúde e segurança.

O lado positivo foi que começou a passar Escrava Isaura na televisão. Julia contava revoltada como as ruas ficavam vazias no horário da novela e como todo mundo se telefonava para especular se Isaura conseguiria fugir com Álvaro ou não. Julia tinha certeza que era muito mais enriquecedor para população quando o governo soviético selecionava o conteúdo e exibia documentários científicos ao invés de novelas brasileiras.

Konsta concordou, mas não conseguia parar de fazer uma imitação de Don Leôncio enquanto eu gargalhava e Julia tentava prender o riso, sem sucesso. Foi, de longe, o momento mais aleatório da viagem. Ou da minha última década de vida.  

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Continuamos conversando na mesa de madeira, enquanto uma lua cheia nascia atrás de montanhas. Perguntei como eram as suas famílias e a resposta me ajudou a entender melhor esse elo nostálgico que os dois tinham com o período pré-89. O pai de Konsta era, em suas palavras, “a high level engineer”. Pedi para ele não ser breve na resposta. “He was an engineer of the Soviet’s Space Shuttle” – ele respondeu com uma indiferença que me impressionou.

Achei que, por isso, não fosse me surpreender com o que o pai da Julia fazia. “He worked in the KGB” – ela respondeu com uma indiferença que me assustou. Não olhei para os lados, mas era a minha vontade, afinal, eu estava em um deserto em Altyn Emel com apenas duas pessoas, entre as quais uma era filha de um ex-KGB.

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Seu pai viajava para todos os eventos internacionais esportivos e a missão era assegurar que os atletas e membros do comitê voltariam para a URSS, ao invés de cederem à tentação de ficarem soltos em terras ocidentais. Não fiz mais perguntas.

Passei alguns dias com essa dupla descobrindo que a natureza do Cazaquistão era mais bonita do que a que eu já muito esperava, e sem turistas!, a poucos quilômetros de grandes cidades como Almaty. Subimos montanhas, descemos canyons, margeamos rios. Mas ainda queria, precisava, conhecer os vizinhos do Cazaquistão. Me despedi de Julia e Konsta com nostalgia antecipada. Eles me deixaram na porta do meu hostel e partiram pela moderna avenida de Almaty com o empoeirado 4×4 azul.

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