Escrito em 2015
Ainda não sei se me alegro mais com velejador Benjamin e seus 92 anos de vida ou com Sebastião e seus 450 anos de cidade. Na dúvida, decidi juntar os dois.
O resultado disso foi um dia velejando com Benja na Baía de Guanabara. O convite partiu dele e a empolgação de primeira viagem partiu de mim. Iria velejar em uma das paisagens mais bonitas da cidade aniversariante com um dos velejadores mais experientes: um Barba ruiva carioca.

Acordei cedo no sábado e fui encontrar Benja e sua mulher, Gilda. Como já revelei idades nesse texto, não vou deixar de mencionar que os dois estão juntos há 70 anos.
Nesse longo tempo de vida, Benja velejou quase diariamente. Mesmo com 92 anos, havia vezes que saía sozinho deixando Gilda preocupada. A sua pele revela o quanto de sol ele pegou nessas décadas… sem nunca ter “perdido tempo passando protetor”. Ele tinha mais de 20 anos de idade quando esse negócio de protetor foi inventado.

Observei o casal de longe andando bem devagarinho de braços dados em minha direção. Cumprimentamo-nos e Gilda veio logo me dizer que queria uma terceira pessoa com a gente no veleiro. Se acontecesse alguma coisa no meio da água, eu não iria saber o que fazer. Não discordei.
Foi assim que conheci o segundo velejador, o homem mais jovem que iria garantir nossa segurança. Paulão era o seu nome e só tinha 87 anos.
Embarcamos e parece que naquele momento no qual uma perna se encontra no veleiro e a outra ainda no cais, cruzei uma barreira invisível para um mundo paralelo. Nesse novo mundo, a trilha sonora é o vento, o chão não é mais concreto, o que chamo de corda vira “cabo” e, o mais notável, Benja e Paulão passam a ter menos 50 anos.

Aquele senhor que andava devagarinho minutos antes havia se tornado um garoto. Movimentava-se com bastante facilidade nesse veleiro que era claramente a extensão do seu corpo. Até mais falante ele se tornou e o engraçado era que, mesmo entre o vento, conseguia ouvi-lo melhor do que em terra. O que acabava me relembrando a sua verdadeira idade era a sua sabedoria.
Não só aprendi que corda não se chama corda dentro de um veleiro, mas também aprendi que cada detalhe da baía havia uma história que ele e Paulão se revezavam involuntariamente pra me contar. É bom saber que nesses 450 anos de construção de detalhes, há aqueles que se importam em registrá-los.

Comecei a admirar a paisagem e pensei em Pero Vaz de Caminha pela primeira desde o colégio. Não que ele tenha falado sobre o Rio de Janeiro na sua carta, mas comecei a me questionar que palavras da nossa língua ele teria escolhido para descrever esse desenho tão único de formação de montanhas do Rio. O mesmíssimo desenho há 450 anos. Ele faria isso não de um veleiro, mas de uma caravela e não de uma baía, mas de um “rio”.


Por fim, chegando perto do cais, os detalhes da cidade começavam a ficar maiores. Conseguia ver os casais sentados na mureta da Urca, os grandes prédios no centro da cidade, cada turista dentro do bondinho do Pão de Açúcar. Cheguei à conclusão que o Rio tinha o segredo de se tornar com o passar das décadas cada vez mais jovem, cada vez mais vibrante, cada vez mais vivo.
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