Checkpoint 300

Se me dissessem que era uma prisão,

eu acreditaria.

Estava às cinco da manhã no ponto de encontro que havíamos marcado na véspera. Comecei a escutar o silêncio da madrugada, depois o chamado da mesquita e em seguida a buzina da minha carona que havia chegado.

Entrei no carro e o meu “marhaba” foi respondido com apenas alguns grunhidos. Os dois franceses, a alemã e o palestino estavam – assim como eu – sonolentos, mas certamente não se arrependiam de terem aceitado o convite.

A ideia foi do nosso amigo palestino, Abu Lundi. Ele queria nos mostrar como um dos sessenta e dois checkpoints controlados pelo Estado de Israel funcionava às 5h30 da manhã.

Os checkpoints costumam ser muito práticos e rápidos quando se atravessa no sentido da saída de Israel. Afinal, o que preocupa os israelenses é o sentido contrário: a entrada em seu território. Eles controlam o fluxo com bastante cautela, gerando muitas vezes um enorme acúmulo de pessoas em filas intermináveis. 

Como era bem cedo – o sol não havia chegado perto da linha do horizonte – imaginei que não fosse estar tão movimentado. Porém, as mais de 500 pessoas que vi quando chegamos no conhecido checkpoint 300 me provaram o contrário.

500 pessoas naquele momento, porque fui descobrir mais tarde que o número de palestinos que cruzam apenas esse checkpoint para poder trabalhar em Israel varia de 4 mil a 6 mil. Quatro mil a seis mil. E não quatro mil a seis mil por dia, mas quatro mil a seis mil trabalhadores palestinos – em um estreito corredor cercado por barras de metal – entre 4h e 7h da manhã. Vi palestinos correndo e escalando grades. Vi palestinos se deixando levar pela multidão. Vi palestinos mais afastados e virados para Meca, fazendo a primeira oração do dia.

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É um movimento que faz a mais caótica entrada no antigo Maracanã parecer uma grande aula de ioga. E o que te aguarda depois dos detectores de metal não são um gramado verde e um jogo de futebol, mas soldados verificando o documento de permissão pra o palestino poder entrar em Israel e trabalhar. Permissão porque a democracia israelense pulou a parte do “ir e vir” da Declaração Universal dos Direitos Humanos.   

Israel precisa garantir a segurança de seu Estado. Contudo, eu não sei qual justificativa eles usam para fazer tantas pessoas cruzarem o checkpoint uma por uma. Os poucos 200m entre um lado e o outro são feitos em longas duas horas, pois o normal é que haja apenas um detector de metal, uma cabine, um soldado responsável por revistar… Um Estado que tem tecnologia para fazer o “deserto florescer” e logística para demolir um grande número de casas diariamente, deveria ter a capacidade de colocar outros detectores e cabines para conferir a documentação de cada um dos 4 mil a 6 mil palestinos que se acumulam ali.

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Entretanto, não posso ser injusta. Há um segundo corredor reservado aos idosos que não têm força física para aguentar o cenário caótico. Esse segundo corredor tem a vantagem de estar sempre vazio e a considerável desvantagem de nunca funcionar. Logo, as opções para ir ao trabalho se restringem a um caminho sufocante e violento onde costelas, às vezes, acabam sendo quebradas dentro desse espaço enjaulado por barras de ferro.

Se me dissessem que era uma prisão, eu acreditaria.

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O mais nojento de tudo isso é saber que é feito de propósito. Tornar a vida dos palestinos um inferno não é um passa-tempo de soldados, mas uma calculada estratégia política e militar para expulsá-los, fazê-los desistir de viver ali, pegarem suas coisas e irem embora, facilitando assim a ocupação israelense e criando, por fim, um Estado sionista.

É uma situação caótica.

E uma situação diária.

Sei que o desprezo por seres humanos não é uma política restrita ao Estado de Israel dentre todos os lugares no mundo. Em diferentes países, encontramos situações miseráveis que podem ser fruto de corrupção, negligência social ou incompetência. Entretanto, no caso da ocupação israelense, essas situações miseráveis são fruto de força de vontade.

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